Como desencanar, com tudo isso?

As folhas da cana, cortando a pele, o calor forte, o chão com folhas secas, as formigas lava-pé por toda aquela moita, a  pomba que sai voando entre a plantação, o sol forte, aquele barulho de facão cortando os gomos, homens e mulheres com roupas compridas, boné com camisetas ou panos protegendo a nuca, as mãos calejadas, pouco de conversa se escuta, e as canas se amontoando, e o andar não continua o cheiro forte da queimada realizada, os ovos no ninho, ali a frente, a serpente que se afastou, o som muda quando sacam do embornal a lima para ficar melhor o corte ou do facão ou da foice simbolo do comunismo ali, entre aqueles que se divide o trabalho e a dor, a incerteza do final do dia estar com vida.cana s

Seu almoço ja foi feito, o seu caldeirão quase frio, enrolado no pano de prato feito com o algodão que um dia suas próprias mãos apanharam e colocaram naquele balaio preso a sua testa, esta ali agora servindo de aquecimento para sua comida.

Aquele caldeirão com a tampa amassada preso com a câmara do pneu da bicicleta, com os vários manchões que atestava não mais servir para a segurança do pneu, transforma-se agora em presilha e no estilingue que fez para o filho, ver se acerta alguma rolinha no pasto, ou na quirela jogada no meio do terreiro, para servir de atrativo para elas. Já que as arapucas, seriam para ser usadas em outra ocasião.boia-fria-daniellarosario81

O que iria ali dentro já era sabido, tinha sido preparado com a banha que tinha ganho do vizinho que matara um capado a pouco tempo, criado ali no quintal mesmo com a lavagem que sobrava de todos ali do quarteirão,  o zóiao que era o ovo da galinha caipira, que também vivia ali com todos, não sabendo que um dia ela deixaria de se envolver no caldeirão e estaria comprometida dentro dele ou com suas asas, ou seu peito, pois os pés, eram descartados, pois a crença de que ela ciscava para traz essa sua vida poderia piorar, quem sabe não tendo para cortar mais a cana ou apanhar o algodão. O jiló também fora frito na gordura do porco, bem como o arroz e os pedaços de pele estavam ali inseridos no feijão, com a enorme folha de louro. Ele comia com o caldeirão na mão segurando por baixo, quase tocando no rosto, as mãos com movimentos de ir e vir, afastando e trazendo a comida para o centro, cavucando ia tirando com a colher o que já era o alimento de uma semana, o cardápio variava pouco, e nada gourmet.boia-fria

Deitado a sombra de uma unica arvore ali no meio daquela plantação, afastando as palhas encostando a cabeça na sua botina que tirara para esfriar um pouco os pés, tirava um cochilo, logo em seguida tomava o café que estava naquela garrafa vermelha, fazendo uso da sua tampa como xícara, isso ia até as 17 horas, depois de contado o quanto tinha feito naquele dia, com um grande compasso que o “gato”, o que levava o pessoal para trabalhar no corte da cana, media para depois pagar, não passando dos 40 reais naquele dia.download (63)

Hoje entrando em um ônibus velho retorna para casa, melhorou muito depois da lei que não permitia mais serem levados pelos caminhões, na sua carroceria. Quando chegar em casa vai tirar suas roupas e tomar um banho, ouvindo moda de viola, sentar na porta da cozinha e olhar, a galinha que muito em breve estará junto com ele não ali no terreiro, mas no caldeirão no meio do canavial, o cigarro de palha já foi enrolado e agora, nos seus lábios, com o auxilio da binga, acendera, batendo a ponta no chão para a brasa pegar melhor naquele fuminho goiano, que tem ali escondido, um cuspe com os lábios fechados, selam aquele prazer único. O sol esta baixando e A ave maria esta começando no radio.Cigarro-de-palha-5

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