LAMPARINA

Em Ituverava era uma constante “acabar a luz”, se “armasse” uma chuva, podia esperar que ficaria todos no escuro.
A noite em Ituverava era muito bucólica, o cheiro da terra e das plantas lembro da arvore de Dama da noite que ficava logo a entrada da casa de minha avó, sentia-se o perfume de longe, os morcegos e os relâmpagos, com raios caindo, certa vez caiu um raio em uma pessoa ali próximo ao campo que chegou a matar, por isso muitos escondiam as tesouras e tudo que fosse metal, para não “puxar” os raios.
Nas missas de domingo de ramos eram benzidas varias folhas para queimar nesses momentos de medo, com os pedidos de proteção para Santa Barbara, não era a mesma Barbara filha do Delegado que morava em frente a casa do Luiz Eduardo, Guadalupe e Ritinha. 
E foi em uma noite dessas que acabando a luz eu ainda muito criança estava ali no jardim da praça, sentado com mais crianças em um banco que escuto os gritos de minha avó me procurando, para levar para casa, para iluminar o caminho trazia em sua mão uma lamparina , que com suas candelas iluminava ao longe, com um espectro formando pela silhueta do corpo de minha avó.
As lamparinas era um acessório que não podia faltar nas casas em Ituverava, a casa de minha avó foi uma das primeiras casas em Ituverava, tinha pé direito duplo, ficava acima do nível do solo, com porão, nos quartos a fiação saia lá de cima do teto, em alguns casos existiam as “peras” para acender a luz, que eram bocais onde se rosqueava as lâmpadas de 60 “velas”, (essa unidade de medida era aplicada para designar que aquela lâmpada iluminava igual a quantidade de 60 velas juntas acessas ), em alguns casos existia uma “borboleta”, que vc girava para a sua direita para ascender a lâmpada e depois para apagar, fazia meio giro para a esquerda.
As lamparinas eram feitas quase sempre de chapas de ferro galvanizado, as mesmas que o “Reducino” ou “Rei do sino”,” não sei o nome correto” usava para confeccionar os rufos e calhas ali ao lado do correio quase em frente ao Orlando Merca tudo.(sempre achei o Redusino parecido com o Amigo da Onça, personagem do Péricles cartunista, que vinha na ultima pagina da revista “O Cruzeiro”)
Lembro que às vezes saia para comprar querosene nos secos e molhados da cidade, tínhamos cadernetas em alguns, na casa Silva ali na esquina da praça, dos pais do Luiz Fernando, ou no “Turco”, ali ao lado do bar do” macaco”.
Para abastecer as lamparinas abríamos puxando para cima o pavio longo, cumprido, enrolados que eram confeccionados com retalhos de tecidos, e colocávamos a querosene depois fechávamos e estava pronto o socorro nas noites escuras de Ituverava.
Era comum entrar em algumas casas que tinham o pé direito mais baixo e ver as marcas nos forros feitas pela fumaça das lamparinas. O cheiro também era bem peculiar.
Enquanto o romantismo em um jantar a luz de velas com candelabros de cristal, é ‘certo, o jantar a luz de lamparina, me traz a mente a sensação de “lar”.
Uma passagem que não me esqueço, uma noite saímos de Ituverava e fomos para a beira do Rio Grande na casa dos pais do “ze´porrinha”, (amigão do Camillo Abadalla, do Paulo Piratininga, ele era de “dentro da casa do Camilo”), comer galinhada feita pela Mãe do Zé, uma senhora Afrodescendente que tinha um filho que tocava viola, e foi madrugada toda,estávamos com o Nelsinho do Dr. Nelson, com o Ze´e vários amigos, cantando e comendo a luz das lamparinas á beira do Rio.

 

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